sábado, 24 de setembro de 2011

O silêncio da chuva prenhe. A primeira reclamação foi da distância entre a varanda e o próximo prédio. Quarto em promoção, a vista só me chegava de lado. De frente, carcaças de ar-condicionado aliviavam a inteireza do paredão de concreto. O ar do quarto meu irmão não demorou a ligar no máximo. Pediu para eu fechar a porta da varanda. Ao sair, o ouvi tossir, ouvi que abria o frigobar. Vingança diminuta, deixei a porta do quarto só encostada. Os quartos ficam só de um lado do corredor. Do outro lado, o corredor se abre de fora a fora. Com parapeito e tudo. Me debruço quando o céu ainda só prometia. Caminhantes desviam com naturalidade de um jipe que lagarteia pelo calçadão. Fim de expediente, engarrafamento onde uma rua entronca na outra. Estacionamentos em fila tripla, motoboys, camelôs, meninos, artistas, ninguém dá passagem. O trânsito é tão ruim quanto ou pior que o sistema pluvial. A chuvinha agrava o bafo do asfalto, acerta a pele como um segundo suor. Engrossa. Bueiros não demoram a gargarejar. Poças alteram o traçado da rua. Quase batidas. Buzinas esgoelam. Ônibus de raspão em calcanhares. Semáforos ignorados. Uma moto arranca cortando de um posto, toma a transversal que dá na beira-mar. As pessoas que esperam ônibus ou só se abrigam quase são acertadas pela água que a moto levanta, dão dedo. O rosto sem capacete me dá a impressão de que ele se chama Josias. Mais abaixo, meninos e meninas dormem em papelões, mijam a descoberto, na parede externa do clube. Pelo menos a luz não favorece. Realça tinta descascando, azulejos que faltam. Vejo umas oito piscinas, aulas de ginástica em uma sala envidraçada. Volto pelos óculos. Por algum motivo meu irmão abriu a porta da varanda, zapeia deitado na cama. O teto chia mais alto que a chuva, parece que arrastam uma mesa. Na varanda do lado, riem e amassam latinhas. Provavelmente lá tem uma palmeira tão feia e espaçosa quanto esta. O volume da televisão aumenta, antes de sair ainda ouço dez anos do onze de setembro e Djokovic. Surgiu um guarda que só apita, competindo com o alto-falante gospel em cima de uma Saveiro. Crianças correm pra pular numa das piscinas. Para desespero da professorinha. Não tem salva-vidas. É alta a grade entre o clube e a calçada. Calçada estreita comida pelas frentes dos carros estacionados. Ou seja, pedestres que não atravessam a rua têm que ir pelo meio da rua disputando. A água empoçada fica pastosa, cinzenta logo. Alarme falso, era só pancada de chuva. Começam a recolocar os papelões e expositores de bugigangas ao longo do calçadão, mais no começo e no fim da feirinha.  Um celular se afasta à minha direita - “sou jovem e muito bem...” – entra no elevador ou cala, corte seco. O alto-falante da Saveiro começa a anunciar show de humor. Uma fumacinha hippie levanta de algum lugar no meio da feira, próximo à estátua. As luzes nas barraquinhas favorecem, não dão ideia do cheiro de fritura e da repetição sem fim de chinelos, artesanato e cachaças com caranguejo. Um pintor estendeu suas telas num varal amarrado a dois coqueiros. Meu irmão tosse. Penduram uma faixa sobre CVV na fachada do Pão de Açúcar. Um homem firma a escada para o outro, deve ter caído com a chuva. Uma mulher sai do mercado segurando uma sacola e um celular e para no meio-fio, ainda sobra água rente ao meio-fio. Pousa a sacola no chão, parece que não está conseguindo sinal. Sai de sob a marquise, volta a ligar. Agora acenando junto. Cheiro de esgoto, trânsito parado. Um cara numa bicicleta desvia a tempo da mulher. O poste perto dela finalmente acende.  Pelo visto é para um velho de toalha nos ombros que ela acena. Às minhas costas, a fresta da porta deixa escapar uma música meio grave. O velho se entedia debruçado num parapeito oposto ao meu. Se molha com os pingos de um toldo e se entedia. Olha moto estacionar em fila tripla, os riscos vermelhos passando no relógio de rua e formando o número de telefone do CVV. Isso deve ser forte por aqui. O velho não tem um celular em mãos, não se afeta, não desconfia de que a mulher acena para ele. Nem desconfia de mim. Atrás dele, numa cama, controle remoto em punho, uma segunda mulher procura algo às cegas numa gaveta de criado-mudo. Tateia olhando a televisão até esbarrar num abajur. Retrai a mão, não sei se achou. A mão do velho segura o queixo de um rosto que não quer olhar pra trás. No meu corredor um baque, culpa da camareira, que sai de fininho. Pelo visto não era um celular o que a segunda mulher procurava. Ou era mas ela só desligou. A outra lá embaixo parou de acenar. Continua ligando, olhando vidrada na direção do velho. Uma freada relincha, só os da faixa da direita respeitam o sinal vermelho, um caminhão faz um retorno no meio da pista. O velho limpa a boca com uma das mãos. Parece que, se a campainha é no apartamento, ele se faz de rogado, deve ser. A primeira mulher toca no interfone do prédio dele. Aproveita um morador saindo para entrar no prédio. A Saveiro voltou a apregoar conversão e salvação. A segunda mulher esconde um bocejo com uma mão. Meu irmão tosse. Aumentam o volume da aula de step do clube.

4 contos de réis:

Felipe Carriço disse...

Somente olhos atentos conseguem organizar o caos nosso de cada dia.
Acredito que o ponto de vista deve ter ajudado na tarefa.

Lucas Galvão disse...

Me lembrou Luiz Ruffato. Você está cada dia melhor. Um romance de verdade (digo, algo que não seja uma antologia de crônicas) com essa textura seria FODA.

HugoCrema disse...

Seria foda mesmo, cara. Um romance que é assim é o Submundo, as primeiras cinquenta páginas são só a descrição de uma cena.

HugoCrema disse...

Carriço, eu acho que o esquema é esse mesmo, as coisas surgem erráticas pro olhar. O desafio pro escritor é saber quando fazer ruptura e quando fazer continuidade entre elementos dispersos.

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